QUALIDADE DE VIDA APÓS A HISTERECTOMIA

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QUALIDADE DE VIDA APÓS A HISTERECTOMIA


O útero exerce no universo feminino, além de suas funções biológicas, papeis relacionados à sexualidade e à feminilidade. Este texto visa abordar a relação da histerectomia - cirurgia de retirada do útero - e a qualidade de vida da mulher após a intervenção.

Segundo dados do SUS - Sistema Único de Saúde - a histerectomia representa atualmente a segunda cirurgia mais realizada no Brasil. Por que tantas mulheres precisam passar por esta intervenção? Como essas mulheres recebem o diagnóstico de indicação da cirurgia e quais as principais preocupações em relação à histerectomia? Como é a recuperação no pós-operatório e o que melhora ou piora após a cirurgia para as mulheres submetidas a este tipo de intervenção? Estas e outras questões permeiam a sociedade, que busca por respostas que possam elucidar tais dúvidas.

Em primeiro lugar, é necessário tomar cuidado com a banalização da cirurgia, que não pode ser realizada sem que a paciente apresente alguma patologia que represente quadro de risco para sua saúde.

Entre os casos recomendados para a realização da cirurgia, deparamo-nos com o câncer ou doenças pré-cancerosas da região uterina, câncer de ovário, hemorragia irreversível no pós-parto, infecções incontroláveis, entre outras.

Existem variações em relação à histerectomia, pois poderá ocorrer com a retirada total do útero e do colo do útero, poderá ser parcial/subtotal - quando é retirado apenas o corpo do útero – ou poderá se dar em situações em que a retirada do útero acompanha também a retirada dos ovários e das trompas, como no caso da intervenção total com anexectomia bilateral ou histerectomia radical.

No geral, a cirurgia não coloca em risco a vida da paciente e não apresenta muitos quadros de complicação, talvez, por isso, seja tão requisitada no tratamento, prevenção e extinção de várias patologias.

O diagnóstico de doenças que têm como consequência a histerectomia é acompanhado por profissionais da saúde que têm com um dos principais objetivos o esclarecimento do que ocorre no corpo da mulher com o procedimento cirúrgico. Entre as principais preocupações entre as mulheres entrevistadas aparece o medo da mutilação, a esterilidade, desempenho sexual e depressão.

Segundo Barker (1988), a depressão é vista de forma crescente em pacientes que passam pelo procedimento de histerectomia, embora o assunto seja pouco relatado na literatura médica, podem-se observar incidências problemáticas e sequelas psicológicas em pacientes após a operação.

Muraro (1983) também forneceu subsídios teóricos e empíricos sobre desenvolvimento da mulher após a histerectomia.

Ele observou que existe diferença do entendimento da cirurgia entre as classes sociais. Ao contrário do que se pensa, as mulheres de classes sociais menos favorecidas tendem a ter um desenvolvimento pós-operatório melhor, pois as mesmas entendem o útero como ferramenta de produção  e, principalmente, quando já são mães, não associam o útero como assessório necessário para a feminilidade. Enquanto para mulheres de classes mais favorecidas, a cirurgia é vista como uma forma de mutilação, pois o corpo dessas mulheres estaria mais voltado para o consumo, o que as levaria a se sentirem menos femininas após a histerectomia.

Existem vários autores contrários aos efeitos da histerectomia nas mulheres em relação à atividade sexual. Enquanto Richards (1974) diz que a histerectomia representa um golpe no território do prazer para as mulheres, Ferrori (1994) observou a elevação da satisfação na atividade sexual em mulheres que passaram pelo procedimento cirúrgico, o que nos deixa a impressão de que o acompanhamento psicológico e a evolução da mídia têm contribuído com o esclarecimento  e com a diminuição do preconceito em torno da cirurgia o que ajuda as mulheres a perceberem que a falta do útero não retira a feminilidade e este trabalho de expectativa pré-operatória ajuda a atenuar a dificuldades no âmbito sexual das pacientes operadas, Leiblum (1990).

De forma geral, a histerectomia tem uma concepção positiva e com efeitos que beneficiam a vida da mulher que sofre de alguma patologia e que tem na intervenção a esperança de alcançar novamente uma vida com qualidade.

Para a maioria das mulheres analisadas nos artigos fontes, a histerectomia aparece como forma de resgatar vidas outrora comprometidas com doenças que lhes custavam muitas vezes até as relações sociais. Apontam as mulheres histerectomizadas que reconquistaram a liberdade em realizar atividades corriqueiras  e, para algumas, houve o relato também do aumento do desejo e atividade sexual, como pode ser identificado na entrevista cedida em um dos artigos fontes:

"Agora acabou, eu tenho paz. A minha vida está até melhor do que estava (E4);(...) eu acho que estou mais alegre até para passear. Adoro sair aos domingos à tarde para caminhar. Há um mês já estou trabalhando, tenho mais disposição e estou muito feliz.(E5)" - Entrevista cedida para realização do artigo: Experiências e Expectativas de Mulheres Submetidas à Histerectomia, Autor: Miriam Aparecida Barbosa e Outros.

Os resultados observados em vários artigos analisados mostram que a histerectomia, apesar de ainda ser vista de forma preconceituosa por parcela da população que associa o útero como parte da sexualidade e funções sociais da mulher, tem alcançado, em contrapartida, índices que demonstram satisfação para maioria das mulheres histerectomizadas.

Quanto aos principais receios pré-operatórios - medo da perda da feminilidade e da libido, queda ou diminuição do desempenho sexual, mudança de humor, irritabilidade e depressão - para a maioria das mulheres que participou dos projetos de pesquisa (Artigos Fonte) em quase sua totalidade não houve relatos. No que diz respeito ao humor, grande parte aponta para uma queda nas alterações do mesmo e dos quadros depressivos, se comparados ao período da menstruação regular e ao período da TPM, quando ainda tinham o útero.

Pode-se concluir que na maioria dos casos analisados houve melhoria na qualidade de vida das mulheres que passaram pela intervenção cirúrgica de histerectomia e, segundo alguns relatos, foi percebido até o aumento da disposição para atividades sexuais e para realização de tarefas do dia-a-dia.