AUTÓPSIA PSICOLÓGICA

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AUTÓPSIA PSICOLÓGICA


A autópsia psicológica é um procedimento de coleta de dados que visa esclarecer possíveis dúvidas em relação a mortes ocasionadas pelo suicídio. Seu principal objetivo é desvendar fatores que levariam o falecido a cometer o ato destrutivo contra a própria vida, pois busca descartar outras situações que ocasionariam aquela morte, tais como homicídios e acidentes.

No artigo de 1937 - Construções da Análise, Freud analisa que assim como o arqueólogo, o psicólogo busca reconstruir fatos através da suplementação e combinação de restos que sobreviveram aos acontecimentos. Os dois estão sujeitos às mesmas dificuldades e a possibilidades de erros nesse processo de reconstrução.

A principal diferença seria que o arqueólogo procura fazer essa reconstrução com vestígios mortos, enquanto o psicólogo busca a mesma compreensão por meio de seu principal material de apoio: o objeto psíquico, que ainda está vivo.

Dessa maneira, mesmo se tratando de um indivíduo que já faleceu, o material psíquico ainda estará presente e passível de análise através de pessoas que conviveram com esse indivíduo ou em seus pertences pessoais, relacionamentos, filosofia de vida, personalidade relatada.

É possível com a autópsia psicológica realizar julgamentos clínicos seguros, que substituirão o diálogo com a pessoa falecida. Através das entrevistas retroativas que serão realizadas com os colaboradores que conviviam diretamente com a pessoa morta, verificar-se-á se houve a existência de preceitos básicos que geralmente antecedem o suicídio e, assim, descartar outras possibilidades e causas para a morte do indivíduo.

 

Existem quatro constructos na autópsia psicológica que deverão ser investigados pelo procedimento, quais sejam:

  • A motivação: razões pelas quais o indivíduo cometeu o suicídio;
  • A avaliação do grau de lucidez: se o indivíduo tinha capacidade de discernimento no momento em que praticou o ato suicida;
  • O Grau de letalidade: seria a escolha do método da própria morte pelo indivíduo;
  • Fatores estressantes e estressores: os últimos fatos e circunstâncias que levaram o indivíduo a optar pela própria morte.

A biografia do morto pela autópsia psicológica tem como principal instrumento as entrevistas com pessoas próximas da vítima, como: parentes, amigos, colegas de trabalho ou de estudo, patrões, empregados. Tais entrevistas visam justificar a relação do falecido com a própria morte.

A partir dos dados adquiridos com a autópsia psicológica é possível desmembrar o ato suicida de outras prováveis causas da morte, evitando, assim, vários tipos de interpretações e consequências desastrosas para o acontecimento fatídico, como por exemplo:

  • Cumprimento de pena de forma indevida por suicídios confundidos com homicídios;
  • Alteração equivocada em dados estatísticos de mortes acidentais e mortes por suicídio.

Existem vários aspectos positivos na realização da autópsia psicológica, pois além de colocar em foco questões cruciais para a resolução de casos de suicídio, ela poderá também:

  • Ampliar programas de prevenção ao suicídio, quando se pode estatisticamente identificar as principais causas que levariam as pessoas a cometerem o ato destrutivo contra a própria vida;
  • Submeter a família e entes próximos da pessoa morta ao processo de terapia, pois a autópsia psicológica mantém um aspecto terapêutico e de acolhimento com essas pessoas, que terão que passar por um duplo processo de luto: a morte do ente querido e a dura realidade de ser o próprio parente morto o causador de sua morte.

Assim, a autópsia psicológica se torna um instrumento crucial e indispensável na investigação post mortem de casos que se relacionam direta ou indiretamente com o suicídio, além de servir como intervenção terapêutica para as famílias que passam por esse duplo processo de luto.