RELATO DOS ÚLTIMOS MOMENTOS DA MINHA VIDA

 

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RELATO DOS ÚLTIMOS MOMENTOS DA MINHA VIDA

- VIOLÊNCIA CONTRA MULHER -

Em meus últimos momentos tive a impressão, em um processo cada vez mais acelerado, que estava perdendo o amor do homem da minha vida. A pessoa que por muito tempo me acompanhou e me deu carinho, mesmo entre algumas brigas que tínhamos, era evidente o quanto ele se importava comigo.
Em algumas crises de ciúmes, ele chegou a me bater... Eu entendo o seu gesto, pois ele não conseguia controlar o ciúme que sentia por mim. E se irritava se me via falando com algum amigo, um vizinho, ou com alguém que não era de sua inteira confiança. Zelo normal para quem ama.
As cobranças eram muitas: Se por algum motivo eu demorasse a chegar em casa, por atraso na condução que precisava pegar ou por ter que permanecer no trabalho um pouco mais de tempo do que o horário normal do expediente do dia. Ele implicava também com as minhas amizades, selecionando as pessoas com as quais eu poderia ou não manter contato.
Ele era assim, não sabia demonstrar seu sentimentos de outra maneira, por isso me agredia verbal, física e psicologicamente. Eu entendia todos os seus gestos como prova de amor, pois nos momentos em que estava sóbrio (sem os efeitos do álcool e de algumas drogas que ele costuma usar), e se em casa estivesse tudo em ordem do jeito que ele queria, e se não houvessem motivos para ele se irritar comigo, ele era o melhor homem do mundo.
Minha família já havia me alertado, os poucos amigos que me restaram também, mas eu o amava demais para abandoná-lo. Ele era o meu príncipe, talvez um pouco ogro, mas apesar disso não conseguia viver minha vida sem estar ao lado dele.
Aquelas agressões físicas foram aos poucos ficando mais violentas, acho que era dessa forma que ele se sentia mais forte na nossa relação, a partir do momento em que me diminuía, me aniquilava. Perdi amigos, perdi parte da minha família (que se recusaram a acompanhar minha situação), perdi alguns empregos (por causa dos escândalos dele), perdi acima de tudo minha alto estima...
Me tornei uma mulher totalmente resignada às vontades dele, pois tinha que fazer o meu casamento dar certo. Precisava daquele homem, acima de qualquer coisa. Foi pensando assim que aos 25 anos de idade perdi minha vida...
Era um dia qualquer do mês de dezembro de 2011, lembro-me que chovia bastante na casa onde morávamos, e há alguns dias eu estava me sentindo mal, enjoada e vomitando sem parar. Parei para calcular os dias da minha menstruação no calendário e percebi que estava alguns dias atrasada.  Fiquei atônita e ao constatar o atraso, corri para a farmácia a fim de comprar um teste de gravidez.
Voltei para casa e sem esperar mais nem um minuto fui ao banheiro colher a urina para realizar o teste. Enquanto o exame não ficava pronto, minha imaginação voou  e passei a sonhar na nossa casa com uma criança, fruto do nosso amor, meu e do meu marido.
Um filho com certeza, seria a solução para o meu relacionamento. Acabaria de vez com as desconfianças e os ciúmes dele, e nos uniria mais. E também seria uma forma de cessar as brigas, e as surras que ele me dava e que estavam cada vez mais constantes. Duvido que ele bateria em uma mulher grávida de um filho dele, ainda mais se essa mulher fosse a esposa que ele escolheu para viver a vida inteira.
Pronto, já haviam se passado os minutos indicados no manual do teste, preciso ver o resultado agora.
E sem me aguentar de tanta emoção olhei para as listrinhas do bastão, e percebi que haviam duas marquinhas. Como não sabia direito o que significava, li novamente as instruções do teste de gravidez que explicavam que, se aparecesse apenas uma listra no bastão o resultado seria negativo, mas se aparecessem duas listrinhas o resultado seria positivo.
Chorei de alegria naquele momento, imaginei que com um bebê a caminho, nossas vidas mudaria para sempre, seríamos mais felizes, uma família realizada e completa. Peguei o telefone para ligar para meu esposo e contar a novidade. Quando o telefone dele chamou, ouvi o toque que vinha de cima da estante da nossa sala.
Percebi que, sem querer, meu marido havia  esquecido o celular em casa e havia ido trabalhar sem o aparelho. Fiquei um pouco triste, pois só poderia contar a novidade da gravidez quando ele chegasse do trabalho. De repente o telefone dele começou a emitir sons de mensagens recebidas, pensei que fosse ele ligando para saber do aparelho.
Peguei o celular e quando li as mensagens comecei a chorar descontroladamente. Eram mensagens de outra mulher que estava agradecendo pela noite de amor que os dois tiveram juntos, realmente ele havia dormido fora de casa alguns dias na semana anterior, mas me avisou que estava de escala em seu novo trabalho, e eu acreditei nele.
Fiquei destroçada, mas precisava me conter. Afinal, essa não era a primeira vez que ele arrumava casos fora do casamento. O importante de verdade era que ele nunca me abandonaria para acompanhar  outra mulher, minha posição era a de esposa, a mulher que ele escolheu para morar com ele. As outras eram casos passageiros... 
Imaginei que logo que ele chagasse em casa e ouvisse a novidade que tinha para contar, tudo mudaria. Ele iria voltar a ser o homem carinhoso que se mostrava nos nossos tempos de namoro e deixaria de lado os casos amorosos de rua e a agressividade.
Respondi as mensagens do telefone dele, falando para a "outra" que eu era a esposa dele e que estava esperando um filho. Pedi para aquela mulher não o procurar mais, pois estava destruindo a felicidade de uma família. Ela prontamente respondeu dizendo que não sabia que ele era casado, por isso se envolveu, e que daquela data em diante não queria mais nada com ele.
Passou algum tempo do envio e recebimento das mensagens, meu marido chegou em casa. Um pouco nervoso procurando pelo celular. Não tive tempo de colocar o aparelho novamente no lugar onde encontrei, e quando ele viu que o celular estava na minha mão, imediatamente o tomou e com muita agressividade esbofeteou meu rosto, alegando que eu estava invadindo sua privacidade ao mexer em seu celular. Quando pegou o celular e viu a última mensagem recebida, percebeu que se tratava de um diálogo meu com sua amante, então me pegou pelos cabelos e me bateu ainda mais, jogando-me contra a parede da sala.
Naquele momento minha cabeça bateu com tanta força que acabei perdendo a consciência, o que por um lado foi melhor para mim, pois não sentia mais dor e meu marido continuou me espancando muito mais, mesmo comigo inconsciente.
Lembro de pouca coisa depois disso. Percebi meu espírito deixando meu corpo já imóvel e ensanguentado no chão. Depois de alguns minutos tentei visualizar meu esposo e percebi que ele estava desesperado, pois depois de me espancar até a morte, foi até o banheiro para se lavar e achou o exame de gravidez que apontava o resultado positivo. Ele chegou perto de mim, me segurou no colo e percebeu que  meus batimentos cardíacos eram inexistentes naquele momento. Pude ouvir seu choro, me pedindo para voltar, pena que naquele momento eu não poderia mais estar com ele.
Assisti a cena de seu desespero, e vi também o instante em que a polícia chegou para prendê-lo. Pois, quando ele começou a me bater eu gritei pedindo para que ele parasse e alguns vizinhos ouviram e como já estavam cansados de me verem apanhar quase todos os dias, ligaram para a polícia. Meu espírito ficou ali, flutuando ao redor do meu corpo e lamentando não ter dado outro rumo à minha vida enquanto tive oportunidade.
Constatei naquele momento, com muito terror, que estava morta.
A única coisa que ainda podia fazer era lamentar...
Lamentar não ter ouvido os conselhos dos meus amigos e familiares. Penso em tantas coisas que perdi, impossíveis de mensurar:
• Precisei assistir a minha família e meus amigos chorarem a minha perda;
• Perdi o nascimento do meu filho e a felicidade que ele traria para minha vida;
• Perdi a oportunidade de ter um relacionamento no qual eu realmente teria algum valor...
Tudo que queria era poder voltar a ter minha vida de volta. Uma vida que foi interrompida tão precocemente.
Infelizmente não posso voltar, e estou consciente das escolhas erradas que fiz. Hoje a única coisa que ainda posso fazer é deixar alguns conselhos para todas as mulheres que estão lendo este relato:
• Se amem em primeiro lugar;
• Repense seu relacionamento, a partir do momento que perceber qualquer tipo de agressão, seja ela física, moral ou psicológica;
• Não tenha medo da separação, se esta realmente for a melhor saída para melhorar sua qualidade de vida;
• Nunca anule a totalidade de seus sonhos por um relacionamento;
• Nunca esqueça: quem ama de verdade não agride, não espanca, não humilha, não diminui a pessoa amada.
• E, acima de tudo, nunca deixe ninguém sufocar a mulher que existe dentro de você.

25 de novembro
Dia Internacional da não-Violência contra a Mulher
Uma luta que devemos lutar  todos os dias do ano!

 

Sabrina de Almeida

 

Foto: iStock